‘Garrincha’ contraria médico e vai jogar Copa SP

Em janeiro de 1997, Cleonice dava à luz o primeiro filho, Daniel Victor. E a notícia que vinha dos médicos não era animadora: devido a um problema na gestação, o menino teria dificuldades para aprender a andar e talvez jamais praticaria atividades físicas. As pernas dele tinham se desenvolvido na região das costelas da mãe e, por isso, eram tortas.

Agora, 18 anos depois, Cleonice recebe outra notícia, desta vez bem mais feliz. O mesmo filho que ela ajudou a dar os primeiros e tardios passos é aprovado em uma peneira no União Mogi e vai realizar o sonho de ser jogador, algo quase inimaginável. Ele vai disputar o Grupo 24 da Copa São Paulo de Futebol Júnior de 2016, contra Flamengo, RB Brasil e Palmeira-RN.

“Dentro da minha barriga, os pés dele estavam na minha costela. Ele não se mexia. Ou, quando se mexia, ficava em uma posição só. Foram passando os dias, e os médicos falavam que ele demoraria para andar, que andaria com dificuldade…¦”, explica a mãe. Devido a esse problema, o pequeno Daniel normalmente perambulava pela casa com a ajuda de um carrinho. Os passos mais firmes começaram a ser dados apenas aos seis anos de idade, quando ele passou a frequentar a escola. Ao mesmo tempo, Daniel usava botas e palmilhas especiais para tentar reverter a situação, além das muitas sessães de fisioterapia.

“Falavam que eu não ia ter força nem para chutar uma bola, que eu ia tropeçar na hora de correr, que não ia conseguir jogar futebol ou praticar atividade física”, conta Daniel. “O pessoal zombava, achava engraçado. Colocavam até apelidos, como “alicate”. Por um tempo me incomodou muito. Tanto que eu nem saía mais de bermuda para a rua, para a escola. Só usava calça. Aos poucos eu parei de me importar e sempre entrava na brincadeira. Eu falava: é assim mesmo, mas um dia vocês vão ver aonde essas pernas vão me levar.

Apesar da limitação, Daniel desde cedo nutriu grande paixão pelo futebol, incentivado pelo pai, que sonhava ter um filho jogador. Depois de finalmente ter o primeiro contato com a bola, na adolescência, ele passou a frequentar escolinhas de futebol em Osasco, cidade da Grande SP onde ainda mora com os pais. “Comecei a pegar firmeza nas pernas com uns nove anos. Nunca tinha jogado bola. Fui jogar quando estava na casa dos meus tios no Paraná, com 12. Fui brincar com uns caras mais velhos, que não sabiam do meu problema, faltava um jogador e me colocaram no ataque. Fiz dois gols, aí meu pai falou: vou investir nele. Foi aí que pegou meu apelido de Garrincha.”

Quando a escolinha onde jogava fechou, veio o impasse: seguir na busca do sonho ou trabalhar em uma área diferente? Mas em 2015 surgiu a oportunidade de fazer um teste no União Mogi, equipe da cidade de Mogi das Cruzes, terra natal de Neymar. O clube onde o pai de Neymar chegou a jogar fazia uma seletiva para montar um time sub-20 e voltar a disputar a Copinha, 16 anos após sua última participação no torneio. “Não conhecia Mogi. No dia anterior fiz um mapinha, depois saí perguntando pela cidade. Cheguei umas três horas antes do teste, de tanta ansiedade. Na hora da apresentação, entre tantos jovens, só tinha eu de lateral-esquerdo. Pensei comigo: é aqui que vou ficar. Meu olho já encheu de água. Graças a Deus consegui passar “, diz Daniel.